Psiconefrologia

Os Relacionamentos Interpessoais Podem Interferir na Qualidade de Vida das Pessoas?

Autor: Enio Ricardo M. Vilhena

Fonte: https://cursoauxiliaradministrativo.files.wordpress.com/2016/03/silhouetteofpeople.jpg?w=840

Sobre o conceito de qualidade de vida proposto pela OMS (1994) podemos compreendê-lo como um termo complexo que considera os impactos da saúde física e mental nas crenças pessoais, relações sociais e a sua ligação com características importantes do seu ambiente.  Com uma visão integral de saúde considera-se então que a qualidade nas relações pode interferir diretamente na percepção do indivíduo sobre essa vida de qualidade.

Quando perguntamos: o que te faz bem? Podemos passar tempos citando estímulos do nosso ambiente que nos remete a uma sensação de bem-estar, esse exercício de resgatar vivências pode ser suficiente para experimentarmos novamente a consequência positiva daquele contato com algo ou alguém, e a chance de tentarmos vivenciá-la novamente é muito grande. Imagino que ao fazer essa pergunta, algumas pessoas que leem esse artigo refletirão, até de forma automática, sobre momentos felizes compartilhados com pessoas que consideram muito importantes e queridas, não é verdade?  Da mesma forma, se invertermos a pergunta para: O que te faz mal? Memórias negativas de relacionamentos ou episódios que envolvem a relação com o outro podem surgir. Esses questionamentos por si só, justificam a importância de olharmos para nossas relações interpessoais como aspectos importantes e necessários de serem trabalhados.

A conexão social vem sendo amplamente estudada, Holt-Lunstad, Robles, & Sbarra, (2017), identificaram que o sentimento associado a conexões sociais bem estabelecidos tem interferência direta em nossa saúde, e estão relacionados inclusive aos índices de mortalidade. Não estar conectado a outras pessoas pode ser considerado um comportamento tão prejudicial à saúde quanto os de fumar e beber, por exemplo. O nosso processo evolutivo é marcado pela constituição de grupo, e considerando nossa fisiologia natural somos dependentes dessas relações que vão se formando ao longo do nosso desenvolvimento e algumas rupturas podem acontecer, contribuindo negativamente nesse manejo em longo prazo.

Sabe aquela sensação de “calor humano”? Geralmente sentimos quando estamos na presença de outras pessoas que nos fazem bem, essa sensação está diretamente associada a alterações naturais da temperatura corporal (Inagaki, Irwin, & Eisenberger, 2015), assim como, nossa variação genética pode aumentar nossa sensibilidade a relacionamentos interpessoais, tendo influência direta a nossa bioquímica cerebral (Pearce et al., 2017).

Como as relações interpessoais são essencialmente humanas, problemas interpessoais podem estar relacionados ao surgimento de alguns transtornos ou desordens psicológicas (fobias, ansiedade, depressão). Sendo assim, percebeu-se a necessidade de elaboração de um modelo terapêutico que propusesse o manejo dessas demandas.

Identificada à importância das relações interpessoais na qualidade de vida, o que fazer para melhorá-las?  

A psicoterapia vem sendo uma das opções escolhida por clientes que identificam demandas dentro deste contexto.  A Psicoterapia Analítica Funcional (FAP), por sua vez, é um modelo de terapia comportamental contextual, com foco nas relações interpessoais e o sofrimento que ela pode causar ao cliente, sobretudo nas relações de intimidade. Esta proposta lança mão da relação terapêutica (terapeuta-cliente), como laboratório para aprendizagem de comportamentos que promovam a conexão social íntima e saudável. É atribuído a FAP o modelo ACL – awareness (A), courage (C), love (L) (Consciência, Coragem e Amor), onde o terapeuta além de avaliar intelectualmente as demandas do cliente, é estimulado a agir conscientemente, corajosamente e amorosamente nesta relação, com o objetivo de promover as melhorias clínicas e ser  modelo para que o cliente adquira novas habilidades ampliadas para fora do contexto terapêutico. (Haworth, Kanter, Tsai, Kuczynski, Rae & Kohlenberg, 2015).

Referências

Haworth, K., Kanter, J. W., Tsai, M., Kuczynski, A. M., Rae, J. R., & Kohlenberg, R. J. (2015). Reinforcement matters: A preliminary, laboratory-based component-process analysis of Functional Analytic Psychotherapy’s model of social connection. Journal of Contextual Behavioral Science. 4, 281-291. http://doi.org/10.1016/j.jcbs.2015.08.003

Holt-Lunstad, J., Robles, T. F., & Sbarra, D. A. (2017). Advancing social connection as a public health priority in the United States. American Psychologist72(6), 517-530. doi:10.1037/amp0000103

Inagaki, T. K., Irwin, M. R., & Eisenberger, N. I. (2015). Blocking opioids attenuates physical warmth-induced feelings of social connection. Emotion15(4), 494-500. doi:10.1037/emo0000088

Pearce, E., Wlodarski, R., Machin, A., & Dunbar, R. I. (2017). Variation in the β-endorphin, oxytocin, and dopamine receptor genes is associated with different dimensions of human sociality. Proceedings of the National Academy of Sciences, 201700712, 1-6. doi:10.1073/pnas.1700712114

WHOQOL Group (1994). Development of the WHOQOL: Rationale and current

status. International  Journal  of Mental Health, 23, 24-56. doi:org/10.1080/ 00207411.1994.11449286

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