Textos Reflexivos

Repercussões Psicológicas do Adoecimento nos Relacionamentos

Cropped shot of elderly couple holding hands outdoor at sunset. Focus on hands

Imagem: https://br.freepik.com/fotos-premium/tiro-recortado-de-casal-de-idosos-de-maos-dadas-ao-ar-livre-ao-por-do-sol_4958115.htm

Autor(a): Ludiana Cardozo Rodrigues

Na alegria, na tristeza, na hemodiálise e em todos os dias da minha vida. Homens pacientes renais crônicos e mulheres cuidadoras, aspectos psicológicos desses relacionamentos Ludiana Cardozo Rodrigues

De acordo com o mais recente senso da Sociedade Brasileira de Nefrologia, o perfil dos pacientes em hemodiálise possui o predomínio do sexo masculino (58%), a maioria na faixa etária entre 45-64 anos (41,5%), e com mais de 65 anos (35%). Com esses dados, surge nesse contexto, outra figura importante: as mulheres cuidadoras desses homens. Define-se como cuidadoras, aquelas que demonstram zelo, que tratam e cuidam de outra pessoa. Nestes casos, entende-se por cuidadoras informais, com vínculos familiares e sem contar necessariamente com um preparo técnico e/ou emocional para exercê-las.

A rotina dos pacientes renais crônicos envolvem diversos cuidados, e a cuidadora mulher entra em cena. São elas quem organizam os horários dos medicamentos, horários das alimentações, prezam pelos cuidados das atividades de vida diárias, acompanham as sessões de hemodiálise, agendam os exames médicos, produzem a alimentação, cuidam da casa e assim por diante. E na complexidade da exaustão de todos esses cuidados, dificilmente surge tempo para os seus cuidados.

É comum o aparecimento de sentimentos de privação, anulação e muitas vezes, sintomas depressivos. O homem paciente renal crônico depende da hemodiálise para viver e por sua vez, também se sente totalmente dependente da figura dessa mulher cuidadora, mesmo com possibilidade de autonomia de seus cuidados.

Nas escutas psicológicas é comum, muitas mulheres cuidadoras afirmarem nunca terem chorado, ou expressados suas queixas para os homens, pois quem precisa de tratamento são eles. E aqui neste momento a psicologia consegue realizar reflexões sobre os cuidados dessas mulheres, possibilitando construções sobre o ato de cuidar. Muitas entendem esse processo como uma obrigação exclusivamente delas, como se houvesse algo para ser feito por esses homens que somente elas pusessem realizar, negando até mesmo ajuda de outros familiares a ponto de não permitir, muitas vezes o desenvolvimento da autonomia dos homens.

A queixa mais comum desses casais está relacionada à sexualidade. É comum pacientes masculinos com doença renal crônica, apresentarem quadros de disfunção sexual, o que acaba dificultando a satisfação sexual de ambos. E se não for possível o diálogo e compreensão, o casal acaba não resolvendo o problema, criando uma grande barreira em torno desse tema.

Observa-se nestas relações muitas questões culturais e de representações de gênero. A mulher sempre no papel de cuidadora do lar, e quando o provedor deste lar adoece, ela precisa cuidar de tudo. É preciso dar possibilidades de escuta para essas mulheres, que necessitam ressignificar seu papel perante o adoecimento de seus homens, instrumentalizá-las para lidar de forma mais adequada com seus familiares. Sugere-se, ainda, a criação de espaços que promovam a troca de experiências, habilidades e sentimentos com relação ao papel de cuidadora que cada uma desenvolve ao longo do tempo. Para os homens é necessária, a aceitação de sua nova condição como paciente renal crônico, e dentro de suas possibilidades desenvolverem certa autonomia sobre seus cuidados. O casal necessita de acolhimento, de diálogo e construções saudáveis do processo em si, exigindo maior sensibilidade para compreender identificar seus papéis dentro dessa situação.

O apoio psicológico com o sofrimento vivido por parte dessas mulheres e homens, necessita possibilitar reflexões sobre o papel do homem e da mulher como forma homogênea no cuidado, desejando-se que as orientações dos profissionais da saúde sirvam de referência diante das vivências cotidianas com o homem paciente renal crônico e suas mulheres cuidadoras, pois dessa forma será possível reduzir suas angústias com relação ao cuidar e ao sofrimento do outro, permitindo construir uma relação saudável.

REFERÊNCIAS

Censo Brasileiro de Diálise: análise de dados da década 2009-2018. Autores Precil Diego Miranda de Menezes Neves,Ricardo de Castro Cintra Sesso,Fernando Saldanha Thomé,  Jocemir Ronaldo Lugon, Marcelo Mazza Nasicmento.

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