Pesquisas Científicas

COVID-19 e a desinformação: por que compartilhamos notícias falsas?

Imagem: Showmetech

Autora: Luana R. de Santi

A COVID-19 é uma doença causada pelo coronavírus, denominado SARS-CoV-2 e apresenta um espectro clínico que varia de infecções assintomáticas a quadros graves. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a maioria (cerca de 80%) dos pacientes com COVID-19 podem ser assintomáticos ou oligossintomáticos (poucos sintomas), e aproximadamente 20% dos casos detectados requer atendimento hospitalar por apresentarem dificuldade respiratória, dos quais aproximadamente 5% podem necessitar de suporte ventilatório (Ministério da Saúde, 2020).

No estado do Paraná, o Boletim emitido pela Secretaria da Saúde no dia 30/07/2020 informa um aumento expressivo no número de óbitos, conforme Figura 1.

Observa-se também que a doença pode afetar diferentes tipos de pessoas, com ou sem comorbidades clínicas. Os dados divulgados pela SESA (2020) indicam que 2.395 pessoas contaminadas pelo COVID-19 não apresentavam comorbidades e dessas, 365 evoluíram para óbito*. As comorbidades são condições que estão associadas ao surgimento de outros problemas de saúde, como: Hipertensão Arterial Sistêmica, Diabetes Mellitus, Cardiopatia, Neoplasia, Doença Renal Crônica e entre outras. É importante ressaltar que algumas dessas condições, por vezes, são assintomáticas nos primeiros estágios.

Como percebido, a pandemia alcançou proporções alarmantes em todo o mundo. Porém, ainda há quem subestime ou negue a gravidade da situação, desacreditando na importância do isolamento social e protestando pela continuidade de serviços não essenciais. Concomitantemente, percebe-se um grande fluxo de compartilhamento de notícias falsas sobre curas milagrosas e teorias da conspiração a respeito do COVID-19. Será que existem explicações para esses fenômenos?

Murphy e colaboradores (2019) realizaram um estudo junto a 3.140 Irlandeses para verificar a ocorrência de falsas memórias na semana anterior à votação sobre legalização do aborto. O objetivo foi investigar a tendência dos eleitores em produzir memórias falsas relacionadas ao evento. Os pesquisadores apresentaram a cada participante seis reportagens, duas das quais eram histórias inventadas que mostravam ativistas de ambos os lados envolvidos em comportamento ilegal. Depois de ler cada história, os participantes foram perguntados se haviam ouvido falar sobre o evento descrito anteriormente; nesse caso, informaram se tinham lembranças específicas sobre o assunto. Identificou-se que os eleitores de uma campanha política são mais suscetíveis a formar memórias falsas para notícias falsas que se alinham às suas crenças.

O ponto interessante da pesquisa acima mencionada, é que depois de manifestada alguma falsa memória, os pesquisadores sinalizaram que a notícia era falsa, mas no geral os participantes se recusaram a reavaliar a falsa memória. Os autores sugerem que a capacidade cognitiva pode estar relacionada a maiores chances de questionar preconceitos pessoais e fontes de notícias.

Enquanto que Pennycook e colaboradores (2020) sugerem que as pessoas compartilham alegações falsas sobre o COVID-19, em parte, porque não conseguem pensar suficientemente se o conteúdo é ou não verídico. A deliberação (decisão após reflexão) e conhecimento científico foram associados a um discernimento mais forte. Deste modo, o compartilhamento de falsas informações pode estar relacionado ao comportamento impulsivo.

Um estudo comparou respostas fornecidas com e sem deliberação. Os participantes foram solicitados a manifestar uma resposta inicial e intuitiva sob pressão do tempo. Eles tiveram a oportunidade de repensar sua resposta sem restrições, permitindo assim mais deliberação. Essas respostas foram comparadas com outro grupo de participantes que fizeram uma única escolha, mas sem restrições de tempo. Os resultados sugerem que o pensamento rápido e intuitivo (provavelmente emocional) desempenha um papel importante na promoção da crença de falsos conteúdos (Bago et al, 2020).

As fake news são descritas por Kai Shu et al (2017) como sátiras, boatos ou notícias fabricadas com a falta de autenticidade e o propósito de enganar. Intervenções que promovam a reflexão podem ser eficazes no combate a essas notícias. De maneira semelhante, isso sugere que “o sucesso” de notícias falsas nas redes sociais pode se relacionar à tendência dos usuários de rolar rapidamente o feed de notícias e das emoções que provocam o conteúdo envolvente.

Roozenbeek & Linden (2019) conduziram um estudo aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa de Cambridge. O objetivo consistiu em desenvolver um jogo intitulado Bad News para sensibilizar a população sobre as principais ferramentas de manipulação que são utilizadas pelos produtores de falsas notícias. Os pesquisadores acreditam que expor preventivamente, alertar e familiarizar as pessoas com as estratégias usadas na produção de falsas notícias, facilita identificar a exposição à desinformação. A capacidade das pessoas de detectar e resistir à desinformação melhorou após o jogo, independentemente da educação, idade, ideologia política e estilo cognitivo.

As evidências científicas apontam a importância do pensamento crítico e reflexivo para lidar da melhor forma com a Pandemia de COVID-19. As notícias falsas contribuem para a desinformação e dificultam a conscientização da população sobre a gravidade do contexto e as necessidades de saúde atuais.

E você, confere a veracidade das informações antes de compartilhar nas suas redes? 

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*Dados da SESA emitidos em 30/07/2020.

Referências:

Bago, B., Rand, D. G., & Pennycook, G. (2020). Fake news, fast and slow: Deliberation reduces belief in false (but not true) news headlines. Journal of Experimental Psychology: General.

Shu, K. et al. (2017). Fake News Detection on Social Media: A Data Mining Perspective. Cornell University.

Murphy, G., Loftus, E. F., Grady, R. H., Levine, L. J., & Greene, C. M. (2019). False Memories for Fake News During Ireland’s Abortion Referendum. Psychological Science, 095679761986488. doi:10.1177/0956797619864887

Pennycook, G., & Rand, D. G. (2018). Lazy, not biased: Susceptibility to partisan fake news is better explained by lack of reasoning than by motivated reasoning. Cognition. 

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