Pesquisas Científicas

Qualidade de vida e saúde mental em pacientes em hemodiálise: um desafio para práticas multiprofissionais

Foto: Projeto “Canta canta minha gente!” realizado na Clínica de Hemodiálise Evangélico do Grupo Pró-Renal em 2015 pela musicoterapeuta Fernanda Pivatto

Autora: Debora Berger Schmidt

Já é bastante conhecida a prevalência de psicopatologias em pessoas com doença renal crônica em hemodiálise. A rotina estressante do tratamento e os sintomas físicos somados às limitações decorrentes e a alteração nos papéis sociais e familiares configuram um cenário em que sintomas de ansiedade e depressão não são incomuns. 

Embora se saiba com clareza do quão árido é o terreno para a saúde mental na Nefrologia e, especialmente, na hemodiálise, o tema nem sempre ganha o destaque que merece. Isso porque em um tratamento altamente complexo as questões relativas à subjetividade não fogem da regra e assumem um aspecto multifacetado, onde os seus sintomas são facilmente confundidos com quadros clínicos e com diferentes comorbidades.

 Se as questões de saúde mental nesse contexto são intricadas parece coerente que sua abordagem deva ser igualmente complexa…  Afinal, se por um lado, manter o sentido positivo da vida é um desafio para o paciente, é também desafiador para equipe de saúde auxiliar essas pessoas a estarem engajadas com o tratamento e, sobretudo, com a sua vida.

Práticas multiprofissionais são um caminho necessário para abordar o paciente em sua integralidade, e se configuram como um passo para a prática interdisciplinar.  No contexto das clínicas de Hemodiálise, a criatividade para abordar o paciente e vencer todas as resistências envolvidas (sejam elas sociais ou subjetivas) requer o trabalho em equipe. O editorial abaixo, publicado no Jornal Brasileiro de Nefrologia (2019) se refere aos desafios supracitados e faz considerações sobre as práticas da Musicoterapia na Hemodiálise.

Vale a leitura: Link no Jornal Brasileiro de Nefrologia.

Transcrição do editorial:

 Qualidade de vida e saúde mental em pacientes em hemodiálise: um desafio para práticas multiprofissionais

Debora Berger Schmidt1 
http://orcid.org/0000-0001-6563-6665

1Pró-Renal Brasil, Curitiba, PR, Brasil.

A Doença Renal Crônica (DRC) poderia representar a problemática da atualidade nas áreas da saúde: se por um lado os avanços terapêuticos permitem a manutenção e o prolongamento da vida, por outro não garantem necessariamente melhora qualitativa. Embora sejam evidentes as conquistas e os progressivos avanços no tratamento de pessoas com doença renal, diversos estudos reforçam a prevalência de neuropsicopatologias associadas ao tratamento da DRC – como depressão, transtornos de ansiedade, comprometimento de funções cognitivas, fadiga, entre outros1 -, todas facilmente reconhecidas nas queixas e dificuldades adaptativas relatadas pelos pacientes e por seus familiares ao longo do enfrentamento da doença. Diante disso, faz-se importante considerar que o processo de adoecimento provoca mudanças significativas que demandam adaptação de quem o vivencia, podendo influenciar o modo como a pessoa percebe e qualifica sua vida.

O World Health Organization Quality of Life Group conceitua o termo Qualidade de Vida (QV) como: “A percepção do indivíduo de sua posição na vida no contexto da cultura e do sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, suas expectativas, seus padrões e suas preocupações”.2 Como a percepção de uma pessoa sobre a própria rotina é individual, a QV é subjetiva e multidimensional, pois considera aspectos físicos, emocionais, sociais, padrões culturais e familiares, dentre outros. Em estudo brasileiro3 sobre a QV com 286 pessoas em hemodiálise, o escore médio foi de 60,53 (± 14,10), escores menores do que os encontrados em estudos dos EUA (63,7) e da Europa (62,7). Os resultados permitem a reflexão acerca dos fatores mais percebidos como impactados pela doença e pelo tratamento, possibilitando o planejamento de terapêuticas que abarquem aspectos subjetivos deles, para melhorar a qualidade de vida.

A depressão se refere ao quadro psiquiátrico mais frequentemente descrito em pacientes com Doença Renal Crônica, com taxa de prevalência de 20% a 30% em pacientes em hemodiálise. Estágios avançados da DRC estão associados à alta prevalência de alterações psicológicas e psiquiátricas previamente não diagnosticadas e à pior qualidade de vida. A depressão de pacientes em hemodiálise está relacionada à alta morbidade e mortalidade, redução na adesão ao tratamento e piora do estado nutricional.1 Apesar de muito frequente em pacientes com DRC, a depressão é subdiagnosticada, e seu manejo é um desafio, visto que as queixas somáticas associadas à DRC mimetizam sintomas depressivos (como fadiga, anorexia, alterações de peso, distúrbios de sono, náuseas e dor).1

Somado a isso, convém considerar ainda a adesão limitada aos tratamentos psiquiátricos por esses pacientes, pois frequentemente se queixam de inúmeros tratamentos paralelos e da polifarmácia. A dificuldade de o paciente aderir às consultas fora do local e horário de diálise também corrobora para que os tratamentos com foco na saúde mental fiquem em segundo plano, demandando dos profissionais de saúde um esforço interdisciplinar que abarque a complexidade do paciente e de seu tratamento. É nesse contexto que terapêuticas multiprofissionais, especialmente não farmacológicas, consolidam-se como práticas importantes para a abordagem da saúde mental em pacientes com doença renal, fazendo da musicoterapia uma das abordagens possíveis ao paciente com depressão, que podem se beneficiar das intervenções durante o período do tratamento.

O artigo de Hagemann e demais autores,4 intitulado “O efeito da musicoterapia na qualidade de vida e nos sintomas de depressão de pacientes em hemodiálise”, evidencia a musicoterapia como opção efetiva no tratamento e prevenção de sintomas depressivos e na melhora da QV de pacientes em hemodiálise. No estudo, 23 pacientes foram avaliados antes e depois de oito sessões de 75 minutos de musicoterapia durante a sessão de hemodiálise. A avaliação contemplou um questionário de qualidade de vida (KDQOL-SF) e um instrumento de presença de sintomas depressivos (Beck Depression Inventory – BDI-II), e os resultados comparados das avaliações indicam que os participantes tiveram melhora estatisticamente significativa tanto em dimensões genéricas de QV quanto em dimensões específicas da DRC: capacidade funcional (p = 0,011), dor (p = 0,036), estado geral de saúde (p = 0,01), vitalidade (p = 0,004), saúde mental (p = 0,012), lista de sintomas e problemas (p = 0,01) e saúde global (p = 0,01). Na avaliação dos sintomas de depressão, os pacientes apresentaram redução significativa dos sintomas de depressão (p < 0,001).

O estudo corrobora a pesquisa de Pivatto et al.,5 que avaliaram o impacto da musicoterapia nos pacientes em hemodiálise, constatando que houve diminuição de 75% no registro de intercorrências durante as sessões em que aconteceram as atividades musicoterápicas quando comparadas às sessões sem a intervenção. Os pacientes ainda relataram que a percepção da passagem do tempo foi compreendida como acelerada em 79% dos pacientes e houve prevalência de sentimentos positivos durante as sessões de HD compostas pelas intervenções da musicoterapia.

Deve-se ressaltar que a musicoterapia tem se inserido em diversas áreas do contexto da saúde, e na hemodiálise está percorrendo um caminho de consolidação como uma prática de promoção de qualidade de vida e estimulação do envolvimento ativo dos pacientes.4 Trata-se de uma prática de cuidado que contribui para o sentimento de acolhimento, pertencimento e ampliação de possibilidade de enfrentamento.

De maneira geral, as pesquisas sobre qualidade de vida nos auxiliam a compreender quais aspectos estão envolvidos e impactados em cada condição de saúde, e o estudo em questão permite a consideração de que a interdisciplinaridade é um caminho possível para abordar a complexidade da doença renal crônica, constituindo a importância de práticas que abordem a depressão e promovam a qualidade de vida de modo eficaz, integrada à rotina de atendimento ao paciente.

REFERENCES

1 Yeh CY, Chen CK, Hsu HJ, Wu IW, Sun CY, Chou CC, et al. Prescription of psychotropic drugs in patients with chronic renal failure on hemodialysis. Ren Fail 2014;36:1545-9. [ Links ]

2 The World Health Organization Quality of Life Assessment (WHOQOL): position paper from the World Health Organization. Soc Sci Med 1995;41:1403-9. [ Links ]

3 Oliveira APB, Schmidt DB, Amatneeks TM, Santos JC, Cavallet LH, Michel RB. Quality of life in hemodialysis patients and the relationship with mortality, hospitalizations and poor treatment adherence. J Bras Nefrol 2016;38:411-20. [ Links ]

4 Hagemann PMS, Martin LC, Neme CMB. The effect of music therapy on hemodialysis patients’ quality of life and depression symptoms. J Bras Nefrol 2018 Sep 13. pii: S0101-28002018005032101. [Epub ahead of print] [ Links ]

5 Pivatto FB, Silva LR, Simões PN. Canta canta, minha gente: um estudo de caso sobre a musicoterapia com pacientes portadores de insuficiência renal crônica em hemodiálise. Rev InCantare 2015;6:52-72. [ Links ]

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