Pesquisas Científicas

Corpo e envelhecimento: Desafios da cultura atual

Por: Jéssica Caroline dos Santos

Imagem: Pixabay

Vivenciar a velhice é um desafio na cultura atual, somos bombardeados de propagandas sobre produtos, intervenções que prometem em pouco tempo o desaparecimento dos sinais que representam essa importante fase da vida. Os cabelos brancos, marcas de expressão, rugas, flacidez se tornaram sinônimos de sintomas que precisam ser corrigidos com urgência, quem sabe botox de prevenção em todas as regiões.

Assim, os corpos envelhecidos marcados pela sua própria história, pelo ciclo de vida se tornaram um mercado a ser explorado e consumido. A indústria da propaganda, a mídia preenche o imaginário da população com promessas de uma juventude eterna. O preço que a sociedade está pagando é muito maior que os reais pagos nesses produtos consumidos, o custo é observado no horror a velhice, aos velhos e principalmente na sua própria velhice.

Para retratar sobre a temática do corpo e sua expressividade, Goldenberg (2011) realizou um artigo intitulado: Corpo, envelhecimento e felicidade na cultura brasileira. Para a autora o corpo “além de um capital físico, é também um capital simbólico, um capital econômico e um capital social. No entanto, é preciso ressaltar que este corpo capital não é um corpo qualquer. É um corpo que deve ser magro, jovem, em boa forma, sexy.” (GOLDENBERG, 2011 p. 78).

A ditadura dos corpos magros, belos e estéticos ainda predominam como estereótipos de felicidade, sucesso e poder.  Goldenberg (2011) descreve que em relação às mulheres, a cultura patriarcal contribuiu para que estas fossem vistas como objetos simbólicos, as colocando em permanente estado de insegurança corporal, dependência, não as permitindo viver a liberdade de expressão sobre si mesma.

A autora destaca que não é por acaso que Brasil e Estados Unidos são os campeões de cirurgias plásticas, demarcam um estereótipo de mulher que precisa ser consumido. “Pode-se pensar neste sentido, que, além do corpo ser muito mais importante do que a roupa, ele é a verdadeira roupa” (Goldenberg, 2011 p. 79).  Neste contexto, o corpo é algo desprovido de sentido, a situação parece ficar mais crítica ao se tratar dos corpos na fase do envelhecimento.

A autora descreve que ao entrevistar mulheres brasileiras idosas, percebeu um abismo e uma miséria em suas narrativas, pois, muito além das conquistas pessoais vivenciadas ao longo dos anos, mostravam-se “extremamente preocupadas com o excesso de peso, vergonha do corpo e medo da solidão” (GOLDENBERG, 2011 p. 81).

Os discursos das mulheres na terceira idade retravam uma invisibilidade quanto aos seus corpos e a sua subjetividade. Na pesquisa da autora, as casadas demonstravam uma felicidade maior, no âmbito da crítica “no Brasil, onde corpo e marido são considerados capitais, o envelhecimento é experimentado como uma fase de perdas e faltas” (GOLDENBERG, 2011 p. 81).

No entanto, a pesquisadora percebeu que quanto mais se avançava na idade das entrevistadas os discursos mudavam. ”Elas passaram a fazer coisas que sempre desejaram, como dançar, cantar, viajar, passear, namorar, correr, pintar, nadar, estudar etc. Mais importante ainda: deixaram de se preocupar com a opinião dos outros e passaram a priorizar os próprios desejos” (GOLDENBERG, 2011 p. 82).

Muito além dos preconceitos, invisibilidade social, perdas e lutos, a pesquisa da autora demonstrou narrativas acerca da liberdade de ser, pois estavam com os filhos criados, algumas separadas, solteiras e poderiam decidir sobre os seus próprios desejos. Neste sentido, a autora faz uma importante reflexão “quando penso em uma forma positiva de envelhecer, penso em homens e mulheres que nunca foram e nunca serão controlados pelas normas sociais” (GOLDENBERG, 2011 p. 83).

É necessário reinventar a velhice, contrapor a indústria da propaganda que dita sobre os nossos próprios corpos, ter liberdade de decidir e buscar acima de tudo a saúde, qualidade de vida e bem estar.  É preciso olhar para a velhice com orgulho, suas marcas devem ser lembradas por uma geração que lutou por muitas causas sociais, expressão da liberdade, prazer e trabalho.

Para Goldenberg (2011 p.84) “a grande mudança com o envelhecimento parece ser essa mudança de foco, de deixar de existir para os outros e passar a ser “eu mesma” pela primeira vez na vida. É uma verdadeira libertação”.  As rugas, cabelos brancos, flacidez na pele não são sintomas de algo que precisa ser corrigido com urgência, mas sinais de uma vida vivida com alegria, sofrimento e muitas lutas. Cada marca é uma história a ser contada, uma poesia a ser ouvida que proporciona colo para aqueles momentos difíceis.

A velhice precisa ser repensada pelos habitantes dos seus próprios corpos, sua liberdade de expressar e pelo acolhimento da cultura vigente. Os idosos são a base de uma sociedade e devem ser respeitados em sua individualidade e subjetividade.  Tornar-se velho pode ser mais fácil com políticas de cuidado e assistência, liberdade e autonomia. A luta é de todos, pois ser velho é a atual configuração da cultura vigente.

Referências:

GOLDENBERG, Mirian. Corpo, envelhecimento e felicidade na cultura brasileira. Contemporânea (Título não-corrente), v. 9, n. 2, 2011.

Comunicação – Fundação Pró-Renal

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