Textos Reflexivos

Pacientes e Passageiros

Imagem: Desenho – Lucas Cavalcante Barreto, Paciente da Clínica de Doenças Renais Campo Largo, Paraná

Por: Ludiana Cardozo Rodrigues

Corpos de passagem, ensaios sobre a subjetividade contemporânea, foi escrito pela autora Denise Bernuzzi de Sant’Anna, apresentando ensaios problematizando o corpo na atualidade. Para a presente reflexão, ficou restrita ao segundo ensaio “Pacientes e Passageiros”, em que a autora demostra a singularidade dos corpos no adoecimento, deste modo, podemos fazer uma correlação com os pacientes renais crônicos. E quando pensamos em pacientes renais crônicos, verificamos o encadeamento das modificações desses corpos, atravessados por máquinas e, muitas vezes, modificados não só fisicamente, mas nos processos internos das suas subjetividades.

Conforme Sant’Anna (2001) atualmente busca-se um corpo transparente, imaterial e eterno. Capaz de se movimentar por muitos espaços e ultrapassar todas as barreiras. A autora destaca que queremos evitar que o corpo seja um obstáculo. Com isso, podemos entrar em todos os lugares, passar em todos os tempos. O homem é inquieto e incerto, agindo sempre com medo de não ser suficiente, produtivo, ágil, criativo e flexível.

A pessoa que adoece vê esse corpo transparente, imaterial e eterno, sofrendo uma ruptura com seu cotidiano, que culmina com um sentimento de falta de existência. Começa, assim, a desfazer-se de suas certezas e identidades, suas diferenças de sexo, profissão e idade, que tendem a ser anuladas em função de considerar-se uma pessoa com doença. Observa seu corpo como separado da sua vida, e vive na angústia da espera. Espera o diagnóstico, a próxima medicação, a próxima visita e o que a vida ainda vai lhe trazer (SANT’ANNA 2001).

As pessoas que não conseguem elaborar a perda da saúde se sentem impotentes diante do sofrimento, das restrições, dos distúrbios e das perdas advindas da doença e suas repercussões são vividas intensamente.

Sant’Anna (2001) acentua que quando o corpo é adoecido, a pessoa é tratada por partes, através de exames, bulas, receitas e fichas de cadastramentos. A subjetividade do paciente é reduzida a identificações de elementos corporais, tais como ossos, órgãos, sangue, dentre outros. A pessoa torna-se divisível na medida em que seu organismo é exposto. A autora destaca que a humanidade sempre temeu a doença e a associou ao rompimento do silêncio dos órgãos.

O corpo passa a ser campo determinante para se observar e refletir sobre as mutações da sensibilidade individual e da percepção social, tornando possível a relação de considerações sobre a cultura específica de cada época, ao mesmo tempo, que uma inevitável exposição de seu espírito (SANT’ANNA, 2001).

Buscando relacionar a questão do corpo com o paciente renal crônico, pode-se considerar que este corpo, atravessado pelas demandas da contemporaneidade se abre para novos contornos e delineamentos, o que pode levar ao assujeitamento ou ao surgimento de novas subjetividades que lutam para construir novas possibilidades de existência.

Nesse sentido, considera-se que refletir sobre o corpo afetado pela doença renal crônica abre-se um caminho oportuno para a compreensão da questão do adoecimento na contemporaneidade e de seus impactos sobre a subjetividade que, desenha-se a partir de uma composição singular de forças, certo mapa de sensações, dependentes de uma máquina.

Diante do exposto, pode-se analisar que, na Doença Renal Crônica, corpo e subjetividade encontram-se atravessados pelas demandas contemporâneas. De um corpo saudável e produtivo em conflito com um novo universo de sensações. Que entram em cena, o uso das máquinas, configurando assujeitamentos ou novos contornos, modos de vida, sensações e sentimentos diversos que precisam ser acolhidos pelos profissionais de saúde, para que não incorram em dificuldades de aceitação da doença e de seus processos terapêuticos.

REFERÊNCIAS

Bernuzzi de Sant´Anna D., Corpos de passagem, ensaios sobre a subjetividade contemporânea, Estação Liberdade, Sp, 2001.

Comunicação – Fundação Pró-Renal

2 Comments

  1. Araiê

    Amei os comentários do texto!!

  2. Mozart Calisto dos Santos

    Para quem teve a triste experiência em cair num terminal de onubus por passar mal depois de uma sessão de hemodiálise, e vendo pessoas zomberem achando que estava embriagado ou com efeito de drogas. Seria importante ter mais divulgação sobre esta doença que infelizmente nos levar a ser discriminados pelos que desconhecem as nossas dificuldades.

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