Textos Reflexivos

Experiência e Pobreza: Porque não Ouvimos mais os Idosos?

Imagem: Pixabay

Por: Jéssica Caroline dos Santos

A era tecnológica tem gradativamente substituído as relações humanas, as redes sociais estão sendo ferramentas de investimento psíquico para manutenção das amizades, família, trabalho, parceiros sexuais, afetivos dentre outras finalidades. No entanto, o impacto maior recaiu aos idosos e as suas narrativas míticas que buscavam uma reflexão no ouvinte a partir das suas experiências.

Experiências de vida carregadas de significados que em muitos casos direcionavam pensamentos e sentimentos. O idoso é encontrado em muitas culturas relacionado à imagem do velho sábio, mago como se fosse uma consulta a um oráculo. Para Benjamin (1994) a experiência retrata palavras duráveis que podiam ser transmitidas como um anel, de geração em geração. Os encontros entre os jovens e os idosos eram possibilidades deste fenômeno da narrativa ocupar seu lugar no imaginário do ouvinte.  

O retrato da experiência enriquece, transforma o narrador e consequentemente seu interlocutor. Para Benjamin (1994) a pobreza da experiência é a vivência com a ausência de sentido. Neste sentido, ilustra os casos dos soldados de guerra que ao retornar às suas casas nada tinham para falar, trata-se de uma situação de pobreza interna e externa, nada resultou que possa ser transmitido.

Para muitos idosos, a narrativa é uma tradição importante nas relações afetivas que estabelece com seus interlocutores. Para tanto, Benjamin (1985 p.198) realiza uma consideração importante: “quem viaja tem muito o que contar, diz o povo, e com isso imagina que o narrador como alguém que vem de longe”. Neste contexto, o idoso é envolvido pelas suas histórias, realizando uma viagem pelo tempo. São relatos preenchidos de fantasias, sentimentos de uma vida buscando uma validação, um lugar no imaginário do seu ouvinte.

O compartilhar torna-se uma importante ferramenta ao idoso narrador, uma ferramenta de aproximação para suas relações, na busca de um lugar no seu mundo interno e externo. Para Benjamin (1985, p.200) “o narrador é aquele que sabe contar histórias, se dar conselhos é antiquado é porque as experiências estão deixando de ser comunicáveis”.

Ao longo da história, o fenômeno de comunicar as experiências foi sendo substituído pelos livros, principalmente pelos romances. Assim observa-se que havia uma relação única e solitária entre o leitor e as palavras (BENJAMIN, 1985). Na atualidade a internet, redes sociais também são uma forma de comunicação e relações, no entanto, para muitos idosos nesta transição tecnológica, também trata-se de um ato solitário.

Esse fato pode ser justificado, segundo Benjamin (1985, p. 213) “quem escuta uma história está em companhia do narrador”. Para tanto, cabe ao ouvinte conservar o que foi narrado e ao seu compartilhamento. O tempo, a tecnologia, internet tem configurado novas possibilidades de vivências. Desse modo, a consulta ao oráculo, a busca pelo conselho foram redirecionados a essas ferramentas. A experiência dos idosos, suas narrativas míticas, por vezes fantasiosas, está cada vez mais perdendo sentido.

Assim, a mudança causa um estranhamento para aqueles que se dedicaram em suas vivências, almejando nesta etapa da vida contribuir com seus aprendizados. As mudanças tecnológicas são necessárias, mas não devem substituir o contato com aqueles que são a base fundamental da sociedade. O velho sábio, também chora, sofre e precisa ser acolhido nos ouvidos calorosos de seus ouvintes.

Referências

BENJAMIN, Walter. Experiência e pobreza (1933). Obras escolhidas, ensaios sobre literatura e história da cultura, v. 1, p. 123-129, 1994.

BENJAMIN, Walter. O narrador – considerações sobre a obra de Nikolai Leskov in: Obras escolhidas, Magia e técnica, arte e política. 3ª ed. Editora Brasiliense. 1985.

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