Pesquisas Científicas

Insuficiência Renal Crônica: Representações Sociais de Pacientes Com e Sem Depressão – Recomendação de Artigo

Por: Luana R. de Santi

     Esta publicação se trata de uma resenha a respeito do artigo científico “Insuficiência renal crônica: representações sociais de pacientes com e sem depressão”, o qual foi publicado na revista Psico-Uf em 2014 e escrito pelas pesquisadoras Fabrycianne Gonçalves Costa, Maria da Penha de Lima Coutinho e Inayara Oliveira de Santana. As autoras afirmam a utilização de um viés psicossociológico para a confecção do estudo, o qual foi realizado junto a três diferentes contextos hospitalares situados no município de João Pessoa/PB.

            As autoras explicam que devido à cronicidade e complexidade da doença renal e mais especificamente do tratamento hemodialítico, os pacientes são colocados a diversas situações, as quais resultam em modificações significativas sobre a rotina de vida. A não adaptação diante dessas novas circunstâncias pode ser responsável pela prevalência da depressão nesta população.

            O impacto psicossociológico da insuficiência renal crônica (IRC) pode ser observado no primeiro contato do paciente com o seu diagnóstico, a partir do entendimento sobre as complicações e possíveis comorbidades. Além de restrições alimentares e mudanças dos hábitos cotidianos, tais quais tendem a direcionar o paciente a “dificuldades associadas à ausência de experiências que proporcionam prazer, à privação do trabalho, às dificuldades financeiras, à incapacidade física para desempenhar as atividades cotidianas, à necessidade do deslocamento para outra cidade para realizar as sessões de hemodiálise” (Pereira & Guedes, 2009 apud. Costa, Coutinho & Santana, 2014, s/p).

            A importância em entender a forma como as pessoas que possuem doenças crônicas significam suas vivências com a doença, dá-se pela forma com a qual os comportamentos, reações e práticas cotidianas passam pelo crivo das representações sociais.

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As representações sociais (RS) de um grupo de pertença constituem o resultado de um processo de transformação daquilo que é não familiar nem conhecido em algo familiar e particular. Portanto, uma função básica das RS é a integração do novo, o que é conseguido por meio de dois processos interligados, a ancoragem e a objetivação. Nesses processos, são levadas em consideração a memória e as conclusões preestabelecidas, de modo a formar um esquema conceptual ou de referência. Dessa forma, as informações não são incorporadas de modo automático à vida dos indivíduos (Moscovici, 2011 apud. Costa, Coutinho & Santana, 2014, s/p).

Deste modo, a compreensão sobre representações sociais indica uma forma de acessar e conhecer formas de pensar e perceber.

         Quanto à produção do estudo, foram coletados os dados de “26 pacientes nefrológicos, com idades entre 22 e 73 anos sendo, em sua maioria, do sexo feminino (57,7%), casados (84,6%) e com ensino fundamental completo (57,7%)” (Costa, Coutinho & Santana, 2014, s/p). No que se refere aos instrumentos de coleta de dados, foi utilizado um questionário semiestruturado e a Escala de Ansiedade e Depressão (HAD); este último para o rastreamento de sintomas indicativos para ansiedade e depressão.

            Sobre os resultados, 20% da amostra apresentou um escore indicativo para depressão. Porém, a literatura indica que o resultado obtido no contexto hemodialítico depende significativamente do instrumento utilizado, “estudos utilizando o Inventário para Depressão de Beck encontraram maiores índices de depressão em suas amostras […] constataram uma prevalência de 56,3%” (Cukor e cols., 2006 apud. Costa, Coutinho & Santana, 2014, s/p). No que se refere às falas presentes nas respostas da entrevista semiestruturada os dados foram analisados por um Software denominado Alceste, o qual caracterizou determinados discursos como prevalentes, sendo eles:

  • Significados da hemodiálise: […] o dia de tratamento era o pior dia da minha vida, mas depois eu fui vendo que a máquina só me trazia benefícios; […] o tratamento significa tudo de bom; eu acho que o tratamento é uma benção de Deus; a hemodiálise ajuda uma parte do seu corpo; esse tratamento é uma coisa que não esquenta a minha cabeça; mas Deus tem me ajudado e eu tenho suportado.
  • Suporte familiar  e estrutural: […] eu ligo pra um filho meu vem numa moto pra mim pegar e vai buscar uma medicação ali; eu moro em Santa Rita, o carro demora muito para vir me pegar, todo mundo vai embora e eu fico lá na frente sozinha esperando esse carro; meu filho quem vai doar o rins pra mim; porque a gente tinha que pagar carro, era uma dificuldade, ai a gente conseguiu aqui no [hospital], meu filho veio e conseguiu porque a prefeitura liberou um carro pra mim.
  • Descoberta do diagnóstico: […] quando cheguei aqui [hospital] já colocou o cateter no meu pescoço e comecei a dialisar; me deu muita agonia; fiquei nervosa com medo, botei pra chorar [quando recebi o diagnóstico]; tinha muito medo de morrer; me recusei a colocar o cateter durante 22 dias; a doutora me disse você vai ficar internada pra fazer uns exames, mas eu já sabia o que ela ia fazer.
  • Nutrição: […] não pode comer muita coisa que aumente o potássio, o fósforo; não pode nem tocar em jaca, nem em carambola; água ainda eu tomo, liquido em geral, café eu sempre exagero; não faço dieta, como tudo, bebo um copão cheio de água; estou passando uma sede; evito muito sal, carne de porco; fazer bochecha com água na boca e jogar fora; não posso beber água, se beber incha o rosto e os pés; eu não obedeço muito a dieta não.

             Além dessas falas, foram identificados sentimentos como angustia e medo da morte no início do tratamento. Entretanto, ao decorrer do tratamento hemodialítico podem ser observados sentimentos de ambiguidade em relação à Hemodiálise; o amor por algo que o mantém em vida e o ódio pela dependência deste. “Um binômio que expressa a relação ambivalente de vida e morte (Reis, Guirardello & Campos, 2008 apud. Costa, Coutinho & Santana, 2014, s/p).

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As informações expostas indicam a importância do acompanhamento psicológico junto ao doente renal crônico, afim de que o profissional da psicologia possa auxiliá-lo a elaborar formas de lidar com este período da vida, o qual está permeado por novos desafios.

REFERÊNCIA

COSTA, F. G.; COUTINHO, M.P.L. & SANTANA, I.O. Insuficiência renal crônica: representações sociais de pacientes com e sem depressão. Psico-USF vol.19 no.3 Itatiba set./dez. 2014. Disponível em: <http://www.scielo. br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-82712014000300003&lng=pt&nrm= iso&tlng=pt>.

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